sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Comentários sobre o livro "A Arte de ensinar"

O primeiro livro que terminei de ler neste ano, 2014, foi A arte de ensinar, de Jay Parini.
Um colega de trabalho me emprestou em 2013 e logo comecei a lê-lo. A obra é escrita em primeira pessoa e nela Jay Parini conta sua trajetória como professor.
A maior parte do livro é dedicada a descrever o ambiente acadêmico, onde o autor passou a maior parte de sua vida. Ele também retrata as reuniões de professores e alunos universitários nos escritórios ou casas dos professores, reuniões essas nas quais se discutem os textos de autoria dos alunos e como esses textos podem ser melhorados. Além disso, Jay também conta como foi sua experiência como professor em escolas da educação básica e aborda, de forma até que cômica, a relação entre o vestuário e a personalidade dos professores.
Ao descrever as características de bons professores de literatura, a qual é a área de Jay, me recordo de minhas aulas de literatura na faculdade de Letras. O professor de literatura, ao menos o universitário, precisa saber trabalhar as nuanças em sua voz e a sequencia de seu raciocínio expositivo para que possa, de fato, tocar seus alunos no que diz respeito ao texto de que está falando.
 Todavia, melhor ainda é o professor que consegue abordar um texto ou a obra de um autor como um todo desenvolvendo uma aula na qual seus alunos têm a chance de participar, construindo o conhecimento por meio da constante reformulação de ideias provenientes do diálogo entre professor e turma.
Ao longo do livro, o autor menciona muitos autores da literatura inglesa, os quais, sinceramente, não conheço, mas para quem gosta de ler e pesquisar sobre os nomes que aparecem no livro, imagino que essa obra é um prato cheio.
É claro que o autor deixa transparecer um certo, eu diria, amor próprio, ao falar de si e de sua experiência. Na linguagem popular brasileira atual, seria possível dizer que ele “se acha”. 
No entanto, como também professora, eu diria que ele alcançou, em seus mais de trinta anos de professor, aquilo que nós, professores que de fato refletimos sobre nossa prática pedagógica, um bom nível de autoconhecimento. Com o tempo, o professor que realmente busca analisar sua performance no intuito de melhorá-la é capaz de fazer de si mesmo uma imagem como alguém que o observa exteriormente, ou seja, ele é capaz de fazer de si uma imagem que retrata como os outros o vêm. Além disso, com esse exercício constante de reformulação do seu eu, o professor também consegue entender o que passa em seu interior, de que situações provêm suas alegrias, tristezas, preocupações...
O professor que ler esse livro, vai, sem dúvida, se identificar com algumas angústias do autor. Abaixo, algumas citações que me chamaram a atenção, seja por sua verdade universal, seja por serem verdadeiras no que tocam aos meus ex-professores ou colegas de trabalho, seja por serem absurdas no contexto brasileiro:
O que eu desejava era a liberdade de escrever o que quer que desejasse escrever, e quando desejasse escrever. Comecei a me ressentir do tempo que gastava me preparando para dar aulas e fazia tudo o que podia para que essa preparação consumisse menos tempo. (p. 61)
Pois é! Todos os bons professores, aqueles que realmente preparam suas aulas, tentam descobrir a fórmula mágica para gastar menos tempo preparando aulas. Na verdade, ela já existe: métodos engessados com manual do professor anexo ao livro.

“Uma aula é uma performance”. (p. 68)
Professores, naturalmente, se preparam para um show, lembrando que um show não é necessariamente aquilo que traduz o seu verdadeiro eu, mas sim, aquele eu que vai agradar a sua audiência.

“Os alunos adoram quando um professor parece autoconfiante, engraçado, de espírito aberto, ágil. Não gostam de um professor que olha fixa e ansiosamente na direção deles buscando confirmação”. (p. 70)

“Não existe atalho para alguém se tornar um bom professor, se bem que provavelmente ajude ter bons modelos e saber como imitá-los, mantendo, ao mesmo tempo, o sentido da própria integridade e respeitando sua condição de indivíduo único como professor”. (p. 70)
O problema reside naqueles que não são professores e ensinam de forma superficialmente atraente, mas numa análise mais profunda de quem tem o mínimo de conhecimento sobre metodologia de ensino, percebe-se a falta de coerência entre atividade desenvolvida e objetivo. Como se não bastasse esse desperdício de tempo em sala de aula, há aluno ou outro envolvido no processo educacional,  que desprovido de conhecimento sobre didática, acaba julgando o trabalho do professor sem conhecimento técnico melhor, em detrimento de técnicas não tão artísticas, mas eficientes em termos educacionais utilizadas por professores especializados.

“Professores, assim como escritores, também precisam inventar e cultivar uma voz, uma que sirva às suas necessidades pessoais tanto quanto à matéria com que está lidando, uma que pareça autêntica”. (p. 80)
E dá-lhe voz! Para cada turma, dia da semana, assunto há uma voz diferente. Sem contar que a voz muda dependendo dos alunos que estão presentes no dia.
Deve-se acabar com a noção tola de que uma máscara não é "autêntica", de que há algo vergonhoso em "não ser você mesmo". Autenticidade é, em última instância, uma construção, algo inventado – tem muito a ver com um determinado conjunto de roupas que parecerá autêntico, ou não, conforme o contexto. (p.81)
Para cada turma, uma máscara diferente. E isso se aplica à fora da sala de aula.

“Muito depois de termos esquecido o que nossos professores nos ensinavam na faculdade, lembramos de suas roupas”. (p. 91)

“O que meus professores vestiam parecia sugerir muito sobre a maneira de abordarem sua matérias, aflições ideológicas e modo de ver o mundo”. (p.93)
No meu caso, uso calças que não mostrem tanto os contornos do meu traseiro (afinal, quero que meus alunos aprendam a falar inglês... esse deve ser o foco!) e camisetas que não mostrem minha barriga quando estou escrevendo no quadro, ou seja, a escolha da minha roupa é puramente profissional.

“Até certo ponto, a área de conhecimento acadêmico do professor determina seu estilo de roupas.” (p.101)

Professores de línguas, especialmente aqueles com conexões europeias, parecem pensar que estão passeando nas ruas de Paris ou Roma, embora morem num estado onde o número de vacas ultrapassa a população humana. Com frequência usam tecidos caros, com corte europeu. As mulheres que ensinam línguas estão sempre extremamente bem vestidas, com muitas estolas de seda e casacos finamente talhados. Algumas usam vestido. (p.102)
Engraçado como as professoras de inglês jovens são todas cheias de estilo no que toca à roupa; pintam o cabelo, se preocupam com a cor do esmalte... Pessoalmente, creio que querem conquistar os alunos mais pelo o tempo que empregam se arrumando e postando a foto do look no Facebook  do que pelo tempo que empregam preparando uma aula (o qual é sempre permeado pelo Skype, WhastApp e afins on).

“Nós imaginamos, tolamente, que grandes quantidades de tempo são necessárias para realizar um projeto, para reativar as máquinas do pensamento. (...) A maioria dos bons trabalhos são feitos em curto espaço de tempo”. (p. 115)
Só o que não é  bem feito em um curto espaço de tempo são aquelas coisas pessoais que os professores gostariam de fazer, mas não conseguem devido ao tempo empregado fora da sala de aula para desempenhar atividades relacionadas à sala de aula.

“Já peguei a mesma ideia e tentei dar-lhe a forma de um poema, depois de um conto, depois de um ensaio. Pode-se, certamente, adaptar uma ideia de uma forma para outra; porém, realmente acredito na forma ideal para cada ideia, e me empenho para encontrá-la”. (p. 118)
Aí reside o conceito de gênero textual, querido leitor.

“Falamos, porém é Deus quem ensina”. Santo Agostinho (p. 152)
“Remanescentes excêntricos do marxismo tendem a se concentrar em departamentos de língua e literatura, onde o jargão é tão espesso que ninguém consegue mesmo entender o que estão dizendo, algo que os torna inofensivos”. (p. 172)

“Na realidade, a última safra de formandos parece apolítica, amplamente preocupada com sua própria sobrevivência econômica”. (p. 177)
De fato, não consigo entender como pessoas  com nível superior, que tiveram contato com as maneiras mais seguras de acesso a informação nas aulas de metodologia científica, pessoas que se formaram por conseguir redigir um trabalho de conclusão de curso (pelo menos, espera-se que elas tenham redigido o próprio trabalho...) não se interessam por política e não produzem comentários acerca desse assunto. Seria muito bom se as pessoas usassem as redes sociais para, além do compartilhamento dos posts alheios, escreverem o que pensam sobre o que quer que seja. Muita gente apenas se preocupa em ganhar mais  (o que é justo), mas não usa o cérebro para muita coisa (além de achar ruim quando encontra alguém que não tem vergonha de escrever, seja lá o que for).

Enfim, essa é a minha visão geral sobre o livro. Para formar sua própria opinião acerca dele, é imprescindível que você mesmo o leia.

Luciana Estarepravo da Silva
Especialista em Docência da Língua Inglesa e formada em Letras (Português/Inglês)

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A interação entre o conhecimento prévio e o conhecimento linguístico no processo de construção da opinião



Formar uma opinião acerca de algo é uma prática natural do cotidiano, contudo, o processo para se chegar a uma opinião não é algo tão simples.
Para não acabar formando uma ideia equivocada sobre algo a reflexão é uma etapa imprescindível no processo de construção da opinião.
A palavra reflexão remete a um processo interno, o qual o indivíduo desenvolve sozinho. Sendo assim, é por meio da reflexão que uma pessoa traz um tema para seu interior e o analisa, com base em seu conhecimento de mundo, e, dessa análise, extrai sua opinião acerca do tema em questão.
Todavia, os conhecimentos de mundo, ou seja, os conhecimentos prévios, que o indivíduo possui acerca de determinado assunto podem não ser suficientes ou podem ser ultrapassados, o que pode levar a uma opinião falha acerca de algo.
Ora, opinião é, por si só, opinião; logo, não há opinião certa ou errada, há apenas opiniões diferentes.  Entretanto, é claro que opiniões que não são embasadas em argumentos convincentes se tornam irrelevantes e podem causar um caos social. É por causa de opiniões sem embasamento válido que certos maus, como a discriminação, ainda atingem a sociedade.
Mas o processo de formação da opinião não depende apenas do conhecimento prévio e da reflexão. Ele também depende da linguagem.
Vygotsky, nome importantíssimo no campo da educação por suas considerações sobre o sociointeracionismo, afirma que o pensamento só pode ser estruturado por meio da linguagem.
Dessa forma, a primeira ferramenta necessária em todo esse processo de formação de opinião é a linguagem, por meio da qual se tem acesso ao conhecimento prévio, o qual, por sua vez, vai permitir ao sujeito formar sua opinião sobre algo.
Ao formar essa opinião, se o indivíduo deseja expressá-la, também necessitará da linguagem para tal.
É nesse ponto que existe uma semelhança entre os resultados provenientes do grau de conhecimento prévio e do grau de conhecimentos linguísticos.
A qualidade ou credibilidade de uma opinião é proporcional ao nível de conhecimento prévio que o indivíduo possuía sobre o assunto antes de formar uma opinião sobre ele. Alguém, por exemplo, pode dizer que o produto da marca X é melhor que o da marca Y sem possuir muitas informações sobre a matéria-prima envolvida na fabricação de ambos. Simplesmente dizer que a marca X é melhor do que a Y pode dar certa credibilidade à opinião, mas dizer que a marca X é melhor do que a Y porque X utiliza os elementos A, B e C em sua composição irá conferir mais credibilidade à opinião. Dessa forma, é possível afirmar que quanto mais informação envolvida na opinião, maior credibilidade ela terá.
Isso também se aplica à linguagem no que tange a expressar a opinião. Se alguém expressa sua opinião sobre algo construindo as frases adequadamente do ponto de vista gramatical e lexical, sem dúvida sua opinião terá mais credibilidade que a opinião de alguém que não se esforçou em empregar os recursos linguísticos segundo a sua forma e função.
É possível que opiniões expressas com deficiências linguísticas sejam não apenas compreendidas, mas também levadas em consideração; mas, para efeito de aproveitamento de opinião para alguma coisa, como a tomada de decisão ou mesmo levantamento de informação com algum objetivo, é a opinião bem estruturada que chamará mais a atenção.
Em suma, dessa reflexão pode-se extrair que se alguém decide compartilhar sua opinião com outros, seja pelo meio (suporte) ou razão que for, suas chances de obter credibilidade serão maiores se esse indivíduo o fizer de forma bem estruturada.

Luciana Estarepravo da Silva
Especialista em Docência da Língua Inglesa e formada em Letras (Português/Inglês)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Apresentação




Desde a época em que cursava o ensino fundamental eu já gostava de escrever.

Eu lembro que quando eu estava na primeira série do ensino fundamental, atual segundo ano, eu dobrei ao meio algumas folhas de sulfite que tinha em casa e as grampeei, formando um livreto. Dei o título de A cidade das joaninhas. Escrevi uma história e fiz as ilustrações. Poucos dias depois, a professora da escola pediu para que escrevêssemos um livrinho, ao qual intitulei Nas minhas férias eu fui acampar. Recordo-me que a personagem principal se chamava Priscila. Felizmente, ainda tenho essas obras de arte guardadas em minha casa.

Também gostava de anotar tudo que achava interessante nas formações da igreja das quais participava com minha mãe. Eram formações sobre diversos temas, ministradas por bispos, padres, leigos, profissionais de determinadas áreas...

Mais tarde, já no primeiro ano do ensino médio, meu professor de filosofia, vendo as respostas que eu dava por escrito às reflexões propostas durante as aulas, sugeriu que eu escreve um texto para o Prêmio Construindo a Igualdade de Gênero, do Cnpq.

Ao longo dos três anos da faculdade de Letras, eu continuei anotando quase tudo que meus professores falavam durante as aulas expositivas, razão pela qual quando algum colega faltava à aula meu caderno era logo requisitado para cópia. O mesmo acontecia quando as provas estavam se aproximando.

Com todo esse hábito de escrever, a ideia de criar um blog já passeava em minha mente há algum tempo, mas meu maior motivador foi uma pessoa muito especial, que há alguns anos, desde que entrou em minha vida, vem lendo o que escrevo. Ele sempre me motivou a, em meio a minha rotina carregada de atividades, fazer algo que eu gosto.

Um dia, conversando, disse a ele que gosto de escrever e que às vezes escrevo textos mais longos e posto no Facebook, contudo, são poucas as pessoas que curtem, provavelmente porque são poucos os que realmente param para ler. Foi então que ele mencionou algo interessante. Disse que os textos que eu escrevo não são para usuários do Facebook; são mais profundos e, por isso, merecem um local mais apropriado para a publicação.

De fato, Jay Parini, em seu livro A Arte de ensinar disse, na página 118:
 “Já peguei a mesma ideia e tentei dar-lhe a forma de um poema, depois de um conto, depois de um ensaio. Pode-se, certamente, adaptar uma ideia de uma forma para outra; porém, realmente acredito na forma ideal para cada ideia, e me empenho para encontrá-la”. 
Ao conceito de forma adequada para cada ideia dá-se o nome de gênero textual. São exemplos de gênero textual a carta, o bilhete, o formulário, a receita de remédio, a receita de bolo, o poema, a dissertação, dentre muitos outros. Quem sabe o blog seja a forma ideal para os textos que quero escrever!

Quanto ao nome do blog, A Estarepravo opina, creio que meu sobrenome, de origem ucraniana, tem um som forte, além de ser exótico, já que há apenas sete pessoas vivas com o sobrenome Estarepravo legitimamente descendentes do primeiro Estarepravo (que é descendente da família Starepravo) aqui no Brasil, e eu sou uma dessas sete pessoas. Já a escolha do verbo opinar dá-se ao fato de ela refletir o caráter dos textos que aqui serão publicados: opinar. Não é um blog que tem por objetivo trazer a verdade sobre acontecimentos cotidianos ao conhecimento público, porque isso seria um blog jornalístico, o qual requer pesquisa acerca da veracidade da informação e muita responsabilidade por parte do autor; também não é um blog científico, porque isso também exigiria certo rigor ao citar fontes; não é muito menos um blog religioso, porque isso restringiria muito o tema das publicações. É um blog de opinião e opinião, assim como o conceito de belo, é algo pessoal: o que você julga bonito pode não parecer bonito aos meus olhos; dessa forma, a minha opinião sobre algo pode não ser a mesma de meu leitor, todavia, nem eu tenho o objetivo de convencer meu leitor que minha opinião traduz a verdade sobre algo (porque isso traria a esse blog as características mencionadas acima, as quais não quero para esse blog), nem garanto que os comentários de meus leitores me convencerão de algo, embora eles sejam bem-vindos.

Por fim, ao classificar os textos desse blog como opinativos, me sinto em conformidade com os direitos assegurados aos brasileiros pela Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, a saber:

Art. 5

IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

Art. 220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.

Sendo assim, divirtam-se com a leitura!


Luciana Estarepravo da Silva
Especialista em Docência da Língua Inglesa e formada em Letras (Português/Inglês)